Profissionalizar o Terceiro Setor

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Foi-se o tempo em que a boa vontade era suficiente para criar e manter uma organização sem fins lucrativos. Hoje, por mais que você acredite em uma causa e deseje honestamente fazer o bem, se a sua entidade não tiver um mínimo de profissionalização, ela provavelmente não sobreviverá. Isso porque as pessoas querem ter certeza de que você está fazendo tudo certo. Os órgãos públicos de fiscalização também. E o único jeito de fazer tudo certo e comprovar isso é por meio de uma gestão profissional.

A questão foi discutida no XVII Congresso Brasileiro do Terceiro Setor, que ocorreu em São Paulo no último dia 29 de junho, e reuniu profissionais das áreas de contabilidade, auditoria, direito e captação de recursos.

Um dos principais pontos levantados foi a importância de criar mecanismos internos nas organizações que garantam uma gestão correta e transparente independentemente de quem assuma a direção. “A organização precisa ser mais forte do que as pessoas que a compõem”, explicou Airton Grazzioli, promotor de Justiça, curador de Fundações de São Paulo e colunista do Observatório do Terceiro Setor.

De acordo com Grazzioli, é fundamental que a instituição conte com um modelo de governança que sinalize caso algo comece a ser feito do jeito errado, seja com ou sem intenção.

O curador de fundações também destacou que, para os órgãos de controle, a renovação periódica da diretoria é vista como algo muito positivo, um sinal de que a organização é democrática e não depende apenas da existência de uma determinada personalidade à frente dela para existir. Além disso, lembrou que todas as instituições, grandes ou pequenas, deveriam ter um conselho fiscal autônomo, de preferência composto por profissionais de áreas como contabilidade, economia e direito.

Transparência traz credibilidade

Se você já doou tempo, dinheiro ou qualquer outro recurso para uma instituição, provavelmente fez isso por acreditar que assim estaria ajudando outras pessoas. Mas o que você pensaria se depois da sua contribuição a entidade nunca mais entrasse em contato com você ou divulgasse informações referentes aos projetos desenvolvidos? As pessoas querem e precisam saber o que está sendo feito com as doações delas. Da mesma forma, as empresas e os órgãos públicos que mantêm algum tipo de parceria com a sua organização precisam de um retorno. É a famosa prestação de contas, que vai muito além de reunir notas fiscais.

“A contabilidade é a base formal da nossa prestação de contas”, explicou o contador Ricardo Monello, diretor de assuntos jurídicos da Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis (FENACON). “E, na prestação de contas, a informação precisa ser completa, neutra e livre de erro”.

Claro que isso não significa simplesmente colocar o balancete da organização no seu site. Você precisa traduzir as informações contábeis de um jeito simples e divulgá-las em diferentes canais de comunicação.

Terceirização

Em tempos de discussões no Congresso e na sociedade sobre a terceirização, muitas entidades do Terceiro Setor se questionam sobre usar ou não esse tipo de recurso na hora de contratar profissionais. E a juíza do trabalho Erotilde Minharro abordou o tema durante o congresso.

Para ela, ao menos no que diz respeito às atividades principais da sua organização, “se você quer fazer bem-feito, melhor não terceirizar”.

Além de correr riscos legais ao fazer esse tipo de contratação, já que mesmo com a Lei 13.429/17 ainda é muito vaga a possibilidade de terceirizar profissionais para atividades-fim, a organização pode ter um gasto igual ou superior ao gerado por contratações diretas e ainda por cima esvaziar o seu trabalho. “Não faz sentido terceirizar a atividade principal”, opinou a juíza.

Para as atividades-meio, Erotilde acredita que a terceirização pode ser útil se for permitir que a instituição dedique mais energia à atividade principal.

A juíza do trabalho também ressaltou que organizações do Terceiro Setor são empregadoras como empresas com fins lucrativos e que, portanto, precisam respeitar as leis trabalhistas. Além disso, lembrou que é sempre importante fazer com que os voluntários da instituição assinem um termo, de acordo com a Lei 9.608/98, para evitar futuras dores de cabeça com processos trabalhistas.

É importante saber um pouco de tudo

Uma das conclusões do evento é que, para gerir uma organização da sociedade civil, é preciso ter ao menos uma noção de diferentes áreas, como contabilidade, auditoria, direito e captação de recursos. Boa vontade é fundamental, mas, se não vier acompanhada de uma visão estratégica e de muito estudo, não adianta.

“É necessário que todos os atores sociais conheçam ao menos um pouco dessas quatro áreas”, afirmou Marcos Biasioli, coordenador geral do evento.

Ainda de acordo com Biasioli, o próprio congresso nasceu com o objetivo de reunir profissionais dessas áreas para trocarem conhecimento entre si e contribuírem para a construção de um Terceiro Setor mais forte.

Inspirando pelo exemplo

Apesar da importância da profissionalização, não se pode menosprezar a paixão pelas causas sociais. O Terceiro Setor é feito de pessoas que acreditam na possibilidade de tornar o mundo um lugar mais justo e isso não pode mudar. “Todos nós, brasileiros, precisamos nos mobilizar pelo bem”, destacou Alcione Albanesi, empresária e criadora do Amigos do Bem, uma organização que já atendeu mais de 60 mil pessoas no sertão nordestino, combatendo a fome e a miséria na região.

Hoje, o Amigos do Bem conta com um time de 7 mil voluntários, o maior da América Latina, segundo Alcione. E ela não tem dúvidas de que isso se deve em grande parte ao fato de o projeto ter nascido com o engajamento de um grupo de amigos e de ela estar sempre na linha de frente quando o assunto é colocar em prática a missão da entidade.

Fonte: http://observatorio3setor.org.br/

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